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O FUTURO DA FÓRMULA-1

Por Carlos de Paula

 

O assunto deste site é o automobilismo brasileiro, de forma que alguns mais exaltados podem não entender, e até mesmo criticar, a inclusão deste artigo. Entretanto, não devemos esquecer que a Fórmula Um de fato impulsiona grande parte do automobilismo e kartismo brasileiros. Não é surpresa para ninguém que as centenas (seriam milhares?) de crianças e adolescentes do Brasil inteiro praticam o esporte não tanto por amor ao mesmo, mas sonhando em ser, um dia, o próximo Ayrton Senna. Muitos apoiados por seus pais que investem na carreira dos filhos, alguns sonhando com os milhões, outros só com a fama dos filhos. Não interessa. Os aspirantes não sonham em correr na Fórmula Renault até os 50 anos de idade, nem tampouco correr na IRL ou na Petit Le Mans. Se não conseguirem chegar na F-1, bem, paciência, “vamos fingir que estamos satisfeitos com o que destino nos reservou’. Ou seja, se acabar a F-1, como fica o automobilismo brasileiro?

 

Muitos se mostraram surpresos com a retirada da Ford (Jaguar) da Fórmula 1. Eu não fiquei. Na verdade, acho que estava durando muito para uma das fábricas se mandar da Fórmula Um, entre outras coisas, por pura lógica. Sigam o raciocínio adiante. Francamente a Jaguar (Ford) era a melhor candidata, entre outras coisas por ser a pior “equipe de fábrica” do momento. Mas sua partida tem um agravante: põe em cheque o futuro das duas mais fracas equipes do momento, a Jordan e a Minardi.

 

A Jaguar já começou errada. Achar que conseguiria reproduzir o sucesso da Stewart em 1999 foi, na melhor das hipóteses, ingênuo. O grande trunfo da Stewart era justamente a falta de politicagem, e o trabalho no-nonsense conduzido por Barrichelo (e Herbert no último ano) e o resto da equipe, sob a supervisão dos espertos Stewarts, pai e filho. Mas a Jaguar foi altamente política desde o princípio, e contratou o  piloto mais non-sense possível, Eddie Irvine. Foram e vieram diversos pilotos, inclusive dois brasileiros cujas carreiras foram abortadas pela equipe, e diversos chefes de equipe e “advisors”, entre outros Bobby Rahal (?) e Niki Lauda. Principalmente a escolha de Bobby Rahal foi esquisita. O que entendia o nosso bom Bobby de F-1? Só fez duas corridas, na Wolf, no longínquo início da década de 80, e estava acostumado com o ambiente bem menos carregado dos Estados Unidos, pois apesar da guerra IRL X CART, a Fórmula 1 sempre teve ambiente mais pesado e politizado no molde europeu, não americano. Ou seja, a Jaguar estava  fadada ao fracasso, apesar de Mark Webber dar indícios de que havia uma luz no fundo do túnel. Havia sim, mas era vermelha.

 

Os poderosos da F-1 sempre sonharam em ter na categoria o envolvimento dos maiores fabricantes do mundo. Alguns especulam que por essa razão sempre foram boicotados os campeonatos de carros esporte e até mesmo de turismo, opções aparentemente mais lógicas para montadoras que desejam melhorar sua imagem esportiva. Depois de muito esforço, finalmente chegou-se a uma fórmula 1 dominada por fábricas: Fiat, Toyota, Honda, Renault, Mercedes, BMW e Ford. Sonhos do Bernie e Max realizados. Muitas das fábricas não estavam só fornecendo motores: corriam com carros com o nome da própria montadora, como Toyota, Renault e Jaguar, ou compraram vultosas participações nas equipes. 

 

Só que há um porém. Fábricas não têm interesse esportivo na F-1. Podem dizer que têm, mas não têm. Estão ali para ganhar, pois é a única coisa que justifica o dispêndio de milhões de dólares. Estão muito longe de ser um Ken Tyrrel ou Giancarlo Minardi, dispostos a concorrer anos sem ganhar GPs. Ou seja, a imagem de perdedor é uma perfeita queimação de filme para qualquer fábrica, daí, obviamente, a saída da Ford.

 

A saída da Ford afeta a tradição da F-1 tremendamente. Por bem ou por mal, de uma forma ou outra, a Ford está presente na F-1 desde 1967, ou seja, 37 anos. Portanto,  só a Ferrari está na F-1 há mais tempo. E a fábrica sempre teve uma tradição de fornecedora de motores, não de ter sua própria equipe. Com a sua saída, seis dos 20 carros do grid possivelmente não estarão participando do campeonato do ano que vem.

 

Francamente, não vejo como as outras fábricas se interessem muito em ser batidas de forma tão humilhante pela Ferrari, nos últimos cinco anos. Fico pensando na tensão das reuniões dos Conselhos da Mercedes Benz e da BMW, neste ano. Até os japoneses da Honda e Toyota, mais conhecidos pela sua pragmática paciência oriental, devem estar pensando duas vezes se vale a pena tentar bater o Schumi (tanto que os da Toyota apelaram – contrataram o seu próprio Schumi, obviamente na versão light!).

 

Um outro problema sério é o final do patrocínio das empresas de cigarro. Gravíssimo, pois a McLaren, Ferrari e BAR ainda são muito dependentes dos dólares das multinacionais tabagistas. Quando estas se forem, quem pagará as contas? A MB ou a Fiat, por um acaso?

 

As decisões sobre F-1 em montadoras de carros são fundamentadas em duas razões: econômica e marketing, nunca considerações puramente esportivas. Se a F-1 ficar ainda mais cara, duvido que os fabricantes de carro vejam justificativa para continuar no jogo. Um grande exemplo disso foi a situação do DTM há anos atrás. Apesar de as fábricas declararem com grande alarde apoio irrestrito ao campeonato, quase sem explicação os conselhos das montadoras retiraram o apoio do campeonato, que acabou da noite para o dia. Danem-se as equipes, os pilotos, os patrocinadores, e pior, o público. Business is business.

 

Sob a ótica de marketing, friso mais uma vez, é difícil justificar uma imagem de perdedor frequente, que o diga a Peugeot.

 

Mesmo sob o ponto de vista da tradição, a questão é preocupante. A Honda já entrou e saiu da F-1 duas vezes, e esta é a sua terceira jornada. Costuma sair tão rápido quanto entra (e de fato quase se manda nesse ano pela terceira vez). A Renault também já esteve na F-1 duas vezes, e esta é a sua terceira aparição no circo. A BMW veio, ganhou o campeonato de 83, e aprontou suas malas poucos anos depois. A Mercedes abandonou completamente o automobilismo em 1955, devido ao acidente de Le Mans, só voltando à F-1 em 1994. Só a Toyota e Ferrari não tiveram disappearing acts na F-1, e mesmo a última tem falado, em alto e bom tom, que poderia abandonar a categoria (entre outras razões, por que a Fiat não está em uma situação econômica magnífica) num futuro próximo. Era justamente a Ford que demonstrava mais empenho de longo prazo, e agora se vai.   

 

A única esperança seria uma reciclagem de fabricantes, ou inclusão de novas montadoras. Essa opção é um sonho, pois salvo pela VW (leia-se Audi), não haveria no momento nenhum outro fabricante de automóveis com os recursos, razão ou vontade de se meter no circo da F-1. A F-1 não é o BTCC, afinal de contas. 

 

Grids de 14 carros estão longe de ser o ideal de torcedores que pagam fortunas para frequentar as corridas do circo. A redução de custos e atração de “independentes’, ou seja, a volta de uma tradição e estrutura de kitcar são fundamentais não para o crescimento, mas sim para a sobrevivência da F-1. Senão, pais brasileiros, comecem a sonhar com a IRL e American Le Mans.

 

 

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Last modified: March 28, 2007