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AUTOMOBILISMO NO INTERIOR DO BRASIL

Por Carlos de Paula

Contribuições de Paulo Peralta e Tullio Mendonça Mario

 Atualmente, há alguns autódromos de alta categoria em cidades do interior de diversos estados brasileiros, mas o fenômeno é obviamente recente. Na realidade, a proliferação relativa de autódromos só se deu após o final da década de 60, e por muitos anos, Interlagos, inaugurado em 1940, reinou unânime.

 Ainda assim, o automobilismo foi praticado em diversas cidades do interior de diversos Estados brasileiros. Há uns 50 ou 60 anos atrás as cidades interioranas eram geralmente pobres, e despopuladas. O próprio Brasil tinha uma população relativamente pequena até a década de 40, e além disso, o automobilismo era raquítico mesmo nos grandes centros urbanos. A indústria automobilística brasileira só foi iniciada na década de 50, e apesar de serem montados carros no Brasil desde o início dos anos 20, notavelmente das montadoras americanas Ford, GM e Studebaker, a frota era muito pequena e a malha rodoviária, insuficiente e de má qualidade.

 Em virtude desses fatores, a maioria das corridas que ocorriam no Brasil da década de 60 para baixo, eram provas em circuitos de rua temporários – bem longe do padrão dos circuitos de rua de Vitória e Florianópolis da atualidade.

 A segunda corrida do Brasil já ocorreu fora de um grande centro: foi uma prova realizada em São Gonçalo, município fluminense, em 29 de setembro de 1909, ganha por Gastão de Almeida. As autoridades da cidade do Rio de Janeiro julgavam ser perigosa a realização de corridas nas ruas da capital federal. Uma das primeiras corridas no Brasil foi uma prova ligando São Paulo a Ribeirão Preto, em 1916, no molde das longas corridas de estrada do início do esporte na Europa. Durante a década de 20, começaram a aparecer as primeiras estradas asfaltadas, e as primeiras competições nelas. Na cidade de Campinas, interior do estado de São Paulo, ocorreram algumas corridas em uma pista de terra na década de 30, sendo lá que o grande Chico Landi se revelou no esporte.

 

Alfa GTA de Mario Olivetti subindo a Serra de Petropolis: note a serração atras. Foto de Tullio Mendonça Mario

A serrana cidade de Petrópolis, no estado de Rio de Janeiro, foi palco de diversas disputas entre as décadas de 30 e 60, com a óbvia vocação para provas de subida de montanha, modalidade raramente praticada no Brasil. A primeira subida de montanha nessa nobre cidade ocorreu em 1932. Na corrida de subida de montanha de 1967, participaram as grandes equipes do Brasil na época, inclusive a Willys e a Jolly. Naquele ano, organizou-se pela primeira e última vez, um campeonato brasileiro de subida de montanha, que se iniciara na Serra da Graciosa no Paraná, ganha por Luiz Pereira Bueno e seu Alpine. Provas de subida de montanha são corridas contra o relógio, ou seja, os carros não disputam posições na pista. Cada participante larga separadamente, seu tempo é registrado, e o vencedor é aquele que gastar menos tempo para subir a montanha (geralmente duas passagens). O Brasil não é um país montanhoso ao mesmo nível do continente Europeu, mas ainda assim, realizaram-se até a década de 60, diversas provas, principalmente nos Estados de Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná. Nestes a Serra do Mar separa o planalto do litoral. Cabe lembrar que geralmente as estradas de montanha são extremamente importantes, mesmo em fins de semana, e por isso mesmo a modalidade não pegou no Brasil. Por exemplo, qualquer prova na Via Anchieta simplesmente acarretaria em prejuízo de milhões de dólares, mesmo num único fim de semana. Mas mesmo na Estrada do Mar, que liga Santos a São Paulo, foram realizadas algumas disputas até a década de 50, quando a nossa economia não era tão pujante assim. A estrada do mar une os municípios de Cubatão a São Bernardo do Campo, no Estado de São Paulo. José Gimenes Lopes ganhou uma corrida realizada lá em 1959, a bordo de uma Porsche. O auge da subida de montanha na Europa foi nas décadas de 50 a 60, quando até mesmo a Ferrari e a Porsche mantinham equipes de fábrica. Hoje a categoria ainda é muito praticada, principalmente na Itália, França, Alemanha e Inglaterra, mas é bem desprestigiada.  Nos EUA ocorre a subida de montanha de Pikes Peak, no Colorado.

 

Largada de corrida no centro de Petropolis: notem as condições de segurança Foto Tullio M. Mario

Gordinis e DKW em combate na Praça D. Pedro, Petrópolis. Foto Tullio M. Mario.

Mas também foram realizadas corridas pelas ruas de Petrópolis, que foi palco de uma desastrada corrida em 1968, na qual morreram dois pilotos, Sérgio Cardoso e Cacaio. Sergio Cardoso, pilotando uma Alfa Ti Super, desgovernou-se nos treinos e bateu num paredão e diversos postes, estraçalhando o carro, logo após a ocorrência de outro acidente, com uma Alfa GTA de Henrique Kraischer. Sergio teve traumatismo craniano, esmagamento do tórax e faleceu durante a madrugada. A prova contava com muitos pilotos importantes do automobilismo na época: Chico Landi e Ubaldo Cesar Lolli com BMW, a equipe Ford Willys com Luis Pereira Bueno, Bird Clemente e Carol Figueiredo, trinta carros ao todo e público de 50.000 pessoas. Infelizmente, no molde de Imola/1994, a corrida tinha toda vocação para ser trágica desde o princípio. Na terceira volta Carol se acidenta com o Bino Mark I, sofrendo fratura na coluna. Diversos colegas partem a seu socorro, inclusive Wilson Fittipaldi Jr., e o piloto Cacaio, Joaquim Carlos Telles de Matos, que era sobrinho do Marinho da Vemag. Os dois não estavam correndo: o primeiro se recusara a correr, devido às péssimas condições de segurança, e o segundo atuava como bandeirinha. O grande acidente ocorreu na 4a. volta, quando Luis Pereira Bueno, líder da prova, se defendia dos ataques de Ubaldo Cesar Lolli com a BMW. Desesperado, Cacaio sinalizava pois já havia um caminhão de bombeiros na pista, mas infelizmente, estava no caminho do Bino: o atropelamento foi certeiro, e com diversos ferimentos, Cacaio morrera, mas Luizinho fora salvo. A prova foi interrompida, e também, o automobilismo em Petrópolis: esta foi a última corrida na cidade.      

Chegada de corrida em Volta Redonda, 1960

 Na também fluminense Volta Redonda, realizaram-se corridas de rua, com destaque para a prova realizada em homenagem a JK, em 1960. Cabe lembrar que a cidade sediava não só a CSN, mas também a FNM.  A fluminense Adrianópolis, quase ganha autódromo no começo dos anos 60. Infelizmente, com a crise econômica instaurada no período do golpe de 64, não foi possível construir o autódromo, que não passou de bem intencionada maquete. Foi realizada uma prova na cidade mineira de Poços de Caldas, em 1959, ganha por Marinho, com seu DKW. Duas cidades do interior de São Paulo primaram-se por realizar provas bem organizadas na década de 60: Piracicaba e Araraquara. Marinho também ganhou em Araraquara, em 1962. Cabe lembrar que os DKWs tinham bom desempenho nas pistas de rua, devido ao seu bom torque e tração dianteira, e muitas vezes batiam carros bem mais potentes. A Vemag com seus Malzoni, fez um belo 1-2-3 em Piracicaba, em 1965, também com Marinho à frente, seguido de Lameirão e Scurrachio. Piracicaba hoje tem uma pista de terra, na qual se praticam provas de autocross, modalidade também praticada em pistas de terra no interior do Paraná e Santa Catarina.

  Largada na pista de terra de Piracicaba

Mas foi sem dúvida no interior do Rio Grande do Sul que mais se praticou o automobilismo interiorano. Tarumã foi inaugurado em 1970 e a pista asfaltada de Guaporé em 1976 (com Santa Cruz do Sul em vias de ser inaguruado), mas antes disso, o automobilismo gaúcho era prolífico – e em grande parte praticado no interior. Os gaúchos eram vidrados em corridas de carreteras, hábito importado dos portenhos, e no molde destes, as corridas eram realizadas em pistas de terra pelo interior do Estado (embora também se realizassem provas em Porto Alegre). A prova mais importante era o Grande Prêmio Encosta da Serra (RS), disputado até 1961, cujo traçado incorporava a cidade serrana de Gramado, Taquara, Canela, Novo Hamburgo, Nova Petrópolis, entre outras. As carreteras Ford dominaram essa corrida, embora em algumas edições houvesse uma classe para carros turismo. A prova Antoninho Burlamaque foi outra corrida famosa, disputada até 1966. Esta ligava diversas cidades interioranas, por exemplo, Caxias do Sul, Novo Hamburgo e Sapucaia do Sul, sendo que, em algumas edições, Porto Alegre fazia parte do trajeto. Mas outras cidades do interior do Estado, como Santa Maria, Pelotas e Bagé também realizaram provas em circuitos de rua fechados, nas quais os DKWs geralmente se sobressaíam; e Passo Fundo, onde se realizou o Grande Prêmio Estrada da Produção, em 1963, corrida ganha por Vitório Andreatta, seguido dos paranaenses Altair Barranco e Angelo Cunha, e do paulista Roberto Gallucci. E diversas outras cidades gauchas interioranas realizaram provas ate meados de 1960:  Gramado, Pelotas, Camaqua, Santa Cruz do Sul, Caxias do Sul, Cachoeira do Sul, Guaiba, Venancio Aires, Erechim, Vacaria, Julio de Castilhos. Pode-se dizer, com certeza, que o automobilismo esteve presente no estado inteiro.

 

Prova de Carreteras no Rio Grande do Sul

Grande Prêmio Encosta da Serra - 276 Km.

(Taquara/S.Francisco/Canela/N.Petrópolis/Morro Reuter/Dois Irmãos/N.Hamburgo/S.Leopoldo/Morungava/Taquara.


1° G.P. – 23/03/1952

1°-Diogo Ellwanger – Carretera Ford (2h40m)

2°-Aristides Bertuol – Carretera Chevrolet

3°-Catharino Andreatta – Carretera Ford

4°-Aido Finardi – Carretera Ford

5°-Alcides Schroeder – Carretera Ford

 

2° G.P. – 19/04/1953

1°-Diogo Ellwanger – Carretera Ford

2°-Oscar Bay – Carretera Ford

3°-Catharino Andreatta – Carretera Ford

4°-Julio Andreatta – Carretera Ford

5°-José Rimoli – Carretera Ford

 

3° G.P. – 02/05/1954

(S.Francisco/Canela/Gramado/N.Petrópolis/N.Hamburgo/Taquara/S.Francisco) – só mudou o lugar da largada.

1°-Dante Roveda – Carretera Ford

2°-José Madrid – Carretera Ford

3°-Diogo Ellwanger – Carretera Ford

4°-Alcides Schoeder – Carretera Ford

5°-José Rimoli – Carretera Ford

 

4° G.P. – 13/02/1955

1°-Aido Finardi – Carretera Ford

2°-Diogo Ellwanger – Carretera Ford

3°-Julio Andreatta – Carretera Ford

4°-Catharino Andreatta – Carretera Ford

 

5° G.P. – 20/11/1955

1°-Diogo Ellwanger - Carretera Ford

2°-Julio Andreatta – Carretera Ford

3°-Aido Finardi – Carretera Ford

4° José Madrid - Carretera Ford

 

6° G.P. – 15/04/1956
(Agora com duas categorias)

Cat. Força Livre (Carreteras)

1°-Diogo Ellwanger – Carretera Ford

2°-Catharino Andreatta – Carretera Ford

3°-Dirceu Oliveira – Carretera Ford

4°-Julio Andreatta – Carretera Ford

Cat. Standard

1°-Oswaldo Oliveira

2°-Nilson Flores da Silva

 

7° G.P. – 05/05/1957

Cat. Força Livre

1°-Diogo Ellwanger – Carretera Ford

2°-Julio Andreatta – Carretera Chevrolet

3°-José Cury (PR) – Cadillac

4°-João Galvani – Carretera Chevrolet

Cat. Standard

1°-Oswaldo Oliveira

2°-Breno Fornari

 

8° G.P. – 14/09/1958

(N.Petrópolis/N.Hamburgo/S.Leopoldo/Taquara/S.Francisco/Canela/Gramado/N.Petrópolis)

Só carreteras novamente

1°-Diogo Ellwanger - Carretera Ford

2°-José Asmuz - Carretera Ford

3°-Nativo Camozatto - Carretera Ford

4°-Catharino Andreatta - Carretera Ford

 

9° G.P. – 12/07/1959

1°-Nativo Camozatto - Carretera Ford

2°-Catharino Andreatta - Carretera Ford

3°-José Asmuz - Carretera Ford

4°-Aido Finardi - Carretera Ford

 

10° G.P. – 03/04/1960

1°-José Asmuz - Carretera Ford

2°-Raul Fernandes - Carretera Ford

3°-Mario Vecchio – Carretera Chevrolet

4°-João Galvani – Carretera Chevrolet 

 

11° G.P. – 06/08/1961

1°-José Asmuz - Carretera Ford

2°-Italo Bertão – Carretera Chevrolet

3°-Karl Iwers - DKW

4°-Aldo L. P. Costa - Carretera Ford

 

Prova Antoninho Burlamaque

1ª) 01/03/1953 – (Caxias do Sul/N.Hamburgo/Sapucaia do Sul/Capão da Canoa)
Diogo Ellwander (Carretera Ford)

2ª) 21/02/1954 – (P.Alegre/Gravataí/Sto.Antonio/Osório/Tramandaí)

Cat. Força Livre: Diogo Ellwander (Carretera Ford)

Cat. Standard: Oswaldo Oliveira (Ford)

3ª) 27/02/1955 –
 
Catharino Andreatta (Carretera Ford)

4ª) 06/02/1956 –

Catharino Andreatta (Carretera Ford)

5ª) 27/01/1957 –
Cat. Força Livre: Julio Andreatta (Carretera Ford)

Cat. Standard: Breno Fornari (Ford)

6ª) 15/02/1959 – (P.Alegre/Capão da Canoa)
 Catharino Andreatta (Carretera Ford)

7ª) 14/02/1960 –
Raul Fernandes (Carretera Ford)

8ª) 26/02/1961 – (P.Alegre/Tramandaí)
José Asmuz (Carretera Ford)

9ª) 25/02/1962 –

José Asmuz (Carretera Ford)

10ª) 17/02/1963 – (Gravataí/Capão da Canoa)

José Asmuz (Carretera Ford)

11ª) 23/02/1964

Catharino Andreatta (Carretera Ford)

12ª) 23/01/1966 –

Vitório Andreatta (Carretera Chevrolet)

 Hoje em dia, o estado com o automobilismo interiorano mais desenvolvido é Santa Catarina. As provas em Florianópolis são coisa recente, mas o interior de Santa Catarina tem sido palco de corridas há muito tempo. Lajes realizou corridas na década de 60, na qual estrelavam as Simca. Planejava-se um senhor autódromo para Joaçaba, mas acabou tornando-se uma pista de terra, de 2317 metros. Hoje há diversas outras pistas de terra no Estado: São Bento do Sul, Chapecó, Lontras, Camboriú e Jaraguá do Sul, onde se realizam disputas de Turismo 5000, Hot Cars e corridas de carros turismo.

Opala na pista de Joaçaba 

O automobilismo do interior do Paraná  foi e é muito importante até hoje. Cabe lembrar que o primeiro autódromo em cidade do interior do Paraná foi Cascavel, inaugurado em 1973, em cuja cidade já se realizavam corridas na década de 60. E hoje o Estado conta também com o excelente autódromo de Londrina, onde se realizam, entre outras, provas internacionais de Fórmula 3. Mas foram realizadas muitas provas de subida de montanha, de estrada, como a Prova Rodovia do Café, e corridas de carretera e carros de turismo em pistas de rua no interior do Estado, inclusive em Cascavel na fase pré-autódromo.

 

Protótipo AM2 de Arley Marroni: figurinha carimbada das provas do Paraná

Hoje até mesmo o estado de Pernambuco tem seu autódromo interiorano, em Caruaru. Nela se realizaram provas de Fórmula Fiat, Fórmula Truck além de corridas do campeonato nordestino de automobilismo. As provas de velocidade em rua são uma coisa do passado no interior do Brasil, e seu espaço foi tomado pelos ralis, que a partir da década de 60 passaram a ser realizados em bons números no país. O Brasil chegou até a sediar provas do campeonato mundial da modalidade. Por definição, o Rali é mais adequado para as cidades do interior, visto que  no automobilismo brasileiro atual existe uma ênfase muito grande na segurança dos pilotos, equipes e da platéia nas corridas. A foto da largada da corrida em Petrópolis, acima,  mostra as precárias condições de segurança em que eram realizadas essas provas de rua. Hoje o automobilismo se profissionalizou, e não há mais espaço para competições nesse molde. 

 

 

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Last modified: March 28, 2007