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RIVALIDADE RIO SÃO PAULO NO AUTOMOBILISMO

Por Carlos de Paula

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A história do futebol brasileiro está repleta de histórias da grande rivalidade entre São Paulo e Rio de Janeiro. No automobilismo existe um pouquinho dessa rivalidade, mas obviamente num nível muito menor do que no futebol. O propósito deste artigo não é reavivar velhas rixas, e sim examinar alguns fatos interessantes desta disputa regional na história do esporte automotor brasileiro.

 

O Rio de Janeiro foi a capital do Brasil até 1960, portanto, não é surpreendente o fato de que lá foi realizada a primeira corrida realmente importante do país, o GP da Gávea. A corrida da Gávea era uma prova internacional, que trouxe entre outros, a Auto-Union e a Scuderia Ferrari ao Brasil, duas equipes de ponta do automobilismo mundial. São Paulo bem que tentou realizar corridas no mesmo molde da Gávea. Mas devido a uma acidentada prova de rua em 1936, na qual a pilota francesa Helle Nice saiu da pista na última volta, em pleno Jardim América, matando quatro espectadores e um policial, houve numa repensagem sobre esse estilo de provas nas ruas da Paulicéia que crescia cada vez mais. Em termos de pilotos, as duas grandes figuras dos anos trinta foram indubitavelmente Chico Landi, de São Paulo, e Manuel de Teffé, do Rio. Nos anos 30 Rio 1 x São Paulo 0.

 

Rio, 1937: Pintacuda e Stuck

Apesar de o Rio ser a capital do país, o dinheiro já estava em São Paulo nos anos 30, e a cidade seguiu a tendência do automobilismo mais desenvolvido do mundo: tirar as corridas das vias públicas, transferindo-as para os autódromos. Assim, foi construído o autódromo de Interlagos, em São Paulo, inaugurado em 1940. Esse foi o primeiro autódromo do Brasil, e, sem dúvida, o catalista da mudança do eixo do automobilismo do Rio para São Paulo. Com o agravamento da Segunda Guerra Mundial, as atividades automobilísticas foram interrompidas. Mas no pós guerra continuavam a se realizar provas de rua na Gávea e provas internacionais em Interlagos, com pilotos de categoria internacional como Luigi Villoresi, Achille Varzi, Alberto Ascari e Giuseppe Farina. A prova da Gávea sobreviveu só até 1954, assim consolidando a posição de São Paulo como centro do automobilismo brasileiro (embora, justiça seja feita, os gaúchos estivessem desenvolvendo demais o seu próprio estilo de automobilismo, calcado na experiência argentina - provas estradais e carreteras). Foram surgindo provas tradicionais em São Paulo, como as Mil Milhas, em 1956, e os 500 km de Interlagos, em 1957, assim substituindo as grandes corridas internacionais do Rio e São Paulo. As últimas grandes corridas deste ciclo foram as provas internacionais de Rio e São Paulo, em 1957, ambas ganhas pelo campeonissimo Fangio.  Quanto aos pilotos, os paulistas ficaram na vanguarda nos anos 50, com Chico Landi, Bino Heins, Ciro Cayres, Celso Lara Barbéris e Camilo Christófaro. O Rio produziu Gino Bianco e o promissor Fritz D’Orey, cuja carreira terminou prematuramente em 1960, após terrível acidente em treinos em LeMans.  

 

Chico Landi em Interlagos: anos 40

Interlagos 1957 - Final da Era das Grandes Provas Internacionais

Com o estabelecimento das equipes de fábrica da Simca, Vemag e Willys, a hegemonia de São Paulo se tornou patente, visto que as três montadoras situavam-se na zona metropolitana da cidade. A grande maioria dos pilotos das fábricas era paulista, restando aos cariocas participação em carros particulares. Os paulistas Luiz Pereira Bueno, Bird Clemente, Marinho, Jaime Silva, Wilson Fittipaldi Júnior, além dos pilotos remanescentes dos anos 50 mencionados acima, dominaram o esporte na primeira metade dos anos 60.  Entre as montadoras, só a FNM se situava no estado do Rio, mas esta não tinha equipe de fábrica. Entretanto no começo da década de 60 alguns cariocas(alguns diriam fluminenses) tiveram projeção com os carros FNM, entre os quais Mario Olivetti e os irmãos Varanda. Até as vitórias mais importantes com veículos JK ocorreram nas mãos dos paulistas Chico Landi, Bino Heins, Camilo Christófaro, Antonio Carlos Avallone e Antonio Carlos Aguiar, todos de São Paulo.

 

O Fluminense FNM: sucesso com paulistas nas 1000 Milhas de 1960

Um fato interessante, que mostra um pouco dessa rivalidade, foi o boicote das equipes Vemag e Willys, na prova Seis Horas da Guanabara de 1962. O regulamento da corrida fora elaborado pelo Automóvel Clube Estadual de São Paulo, que recomendara não usar largada tipo Le Mans, e que não largassem mais de trinta carros no circuito de 4 km, por questões de segurança. Mas na última hora, o Automóvel Clube do Brasil, baseado no Rio, e encarregado da organização da prova, mudou o regulamento, aprovando a largada  Le Mans e 32 carros no grid. As duas equipes paulistas resolveram fazer forfait, em solidariedade ao Automóvel Clube, iniciando-se assim diversos anos de briga entre as duas entidades. Sorte da Simca, que ganhou a corrida com Jaime Silva em 1° e Ciro Caires em 2°. Até Ignacio Terrana e seu Simca - figurinhas carimbadas de Interlagos que sempre terminava as corridas nos últimos lugares, abastecendo o carro patrocinado pela sua própria fábrica (Nadadeiras Italianinhas, ou seja, meros pés-de-pato) no posto situado do lado de fora do autódromo e rodando tranquilo em Interlagos na base dos 5 minutos - terminou a corrida em 4°, e último, lugar, quase vinte voltas atrás de Jaime. (O 3° foi o competente petropolitano Mario Olivetti, com JK, bem próximo das Simca de fábrica).

 

Mas apesar da hegemonia dos paulistas nas equipes de fábrica, começava a surgir uma boa geração de pilotos cariocas, em meados da década de 60, que corriam na Ilha do Fundão e posteriormente no autódromo de Jacarepaguá. Entre outros, apareceram Norman Casari (que foi piloto oficial da Vemag), Maurício Chulam, Heitor Peixoto de Castro, Ronald Rossi, Bob Sharp, Ricardo Ashcar, Renato Peixoto, Fritz Jordan e Jose Maria Giu Ferreira. Foi na Fórmula Vê que os cariocas começaram a mostrar mais serviço, especialmente Ricardo Achcar.

  Heitor Peixoto de Castro na F-Ve: boa geração de cariocas

De fato, foi o carioca Achcar o primeiro a ganhar uma prova de Fórmula Ford na Inglaterra, enquanto o autódromo do Rio de Janeiro ganhava em importância, dado o fechamento de Interlagos para reformas, em 1968 e 1969. O Rio foi verdadeiramente a capital do automobilismo nesses dois anos, com muitas corridas importantes, embora realizassem-se provas em Curitiba, Salvador, Belo Horizonte, Brasília e Rio Grande do Sul.  

 

Após a ida de Emerson Fittipaldi e Luis Pereira Bueno para a Europa, em 1969, inúmeros brasileiros seguiram para o continente em 1970: os paulistas José Carlos Pace, Wilson Fittipaldi Junior e Francisco Lameirão, o gaúcho Rafaelle Rosito, e um razoável contingente de cariocas, Fritz Jordan, Norman Casari, Jose Maria Giu Ferreira e Ronald Rossi. Infelizmente para os cariocas, os paulistas Pace e Wilson tiveram excelente desempenho na F-3, e os cariocas tiveram fraca atuação nas Fórmulas 3 e Ford.

 

Voltando ao automobilismo local, surgia no Rio de Janeiro, ao mesmo tempo em que se fechava o autódromo do Rio, o embrião de um dos mais importantes fabricantes de carros de corrida do Brasil: a Heve, dos irmãos Ferreirinha, construtores do Patinho Feio de Maurício Chulam. E Achcar e Rossi também resolveram construir carros de corrida, com a marca Polar, a partir de 1973. De fato, nesse quesito a luta Paulistas x Cariocas foi bem equilibrada. Os Heves e Polar eram imbatíveis na Divisão 4 classe A, os paulistas Avallones e Hollywood-Berta na Divisão B. Na Fórmula Ford, a Heve e Polar sempre tomaram lavadas da paulista Bino; por outro lado, já a partir da terceira temporada, a carioca Polar monopolizou a Fórmula Super-Vê.

 

Heve com Mauricio Chulam: dobradinha carioca de sucesso

Quando o paulista Emerson foi campeão brasileiro de Fórmula 1 pela segunda vez, em 1974, um carioca radicado em Brasília começou a se projetar no automobilismo brasileiro: Nelson Piquet, na fórmula Super-Vê. E foi esse mesmo piloto que acabou sendo o segundo campeão brasileiro de Fórmula 1, em 1981, tendo ganho, anteriormente, o título inglês de Fórmula 3 (pela terceira vez ganho por um brasileiro, após os paulistas Emerson em 69 e Pace em 70, e curiosamente, em ferrenha disputa com o paulista Chico Serra!). A balança voltou a favorecer os paulistas, com o surgimento de Ayrton Senna, em 1984, e de fato, o paulista Ayrton e o carioca Piquet nutriram uma forte rivalidade (e antipatia) que chegou ao cúmulo de ofensas de nível pessoal de gosto questionável.  

 

Pode-se dizer que a grande rivalidade nos últimos tempos se referiu ao local de realização do GP do Brasil de Fórmula 1. O autódromo de Jacarepaguá fora completamente remodelado, tornando-se um verdadeiro autódromo de nível internacional, e posto em condições de receber a Fórmula 1. Apesar da tradição de Interlagos, o Rio de Janeiro era de longe a capital turística do Brasil: mais de 95% dos vôos internacionais com destino ao Brasil chegavam no Galeão no final dos anos 70! Certamente o Rio tinha uma estrutura hoteleira mais condizente, além de mais atrativos para receber grandes números de turistas estrangeiros. São Paulo da época na verdade era bem fraco em termos de hotéis: o único hotel de nível internacional na cidade era o Hilton, seguido de um fraco Othon Palace. Já o Rio contava com o Copacabana Palace, o Sheraton, o Intercontinental, o Othon Palace (bem melhor que o de São Paulo), o Glória, além de outros hotéis comparativamente melhores do que os paulistas de segunda linha. Assim, em termos de evento internacional, fazia mais sentido mudar a corrida para o Rio. Realizou-se então o primeiro GP do Brasil no Rio, em 1978. O GP voltou para São Paulo brevemente, em 79 e 80, e depois iniciou-se um longo período de GPs no Rio, entre 1981 e 1989. A grande crítica, em relação à pista de Interlagos, era o seu comprimento. Com quase 8 km, Interlagos era considerado muito longo para a Fórmula 1 moderna, “made for TV”. Portanto, mudou-se o traçado, que reduziu o tempo das voltas em mais de 1 minuto, tornando o circuito “moderno”e o GP acabou voltando definitivamente para Interlagos, em 1990. 

 

Rio 1978: primeiro GP na Cidade Maravilhosa. Ciclo se fecharia em 1989

Visando não perder seu nível internacional,  e devido à forte presença de pilotos brasileiros na Fórmula Indy, logo negociou-se a realização de uma etapa da Cart no Brasil, a partir de 1996. Infelizmente para os cariocas, o evento não durou muitos anos, sendo cancelado a partir de 2001, devido a uma briga política entre a prefeitura e a administração da CART, na época nas mãos do atrapalhado Joe Heitzler. Por um lado, a prefeitura alegava ter pago em dobro as taxas para realização das corridas de 97 a 99, por outro a CART alegava faltar dinheiro.  A prefeitura sentia-se ofendida por não ter sido informada sobre a mudança de traçado da prova, impedindo a CART de inspecionar o circuito. E tanto brigaram os pombinhos, que saiu o divórcio, retirando o Rio do circuito internacional.

 

Atualmente, devido à forte expansão do kartismo no país inteiro, não existe mais a hegemonia  do eixo Rio-São Paulo no automobilismo, seja em termos de volume de provas, como de pilotos, equipes ou mesmo preparadores/fabricantes de carros. De fato, há pilotos de todas as áreas do Brasil participando de inúmeras categorias locais e no estrangeiro, protótipos sendo construídos no Rio Grande do Sul e até Ceará, fortes equipes paranaenses e de outros estados, além de preparadores de primeira no país inteiro. Há certas categorias que sobrevivem (e muito bem) sem nem realizar corridas em São Paulo, e outras esnobando completamente o Rio, indicando que o esporte realmente se tornou mais nacional do que em épocas passadas. Afinal de contas, quem imaginaria, nos anos 70, um piloto amazonense na Fórmula 1 ou um autódromo em Caruarú?   

 

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Last modified: March 28, 2007